domingo, 18 de março de 2018

Vocês não odeiam a Marielle porque ela ““defendia bandidos””


Vocês não odeiam a Marielle porque ela ““defendia bandidos”. Vocês odeiam a Marielle porque ela era preta, mulher, cresceu pobre e com poucas oportunidades. Vocês odeiam a Marielle porque ela fez faculdade, mestrado, participou da política e foi eleita democraticamente. Vocês odeiam a Marielle por ela ter defendido pauta LGBT, porque ela lutava por oportunidades para populações vulnerabilizadas, porque ela mostrava o que tem na favela e o que fazem com a favela todo dia.

Vocês odeiam a Marielle, porque ela mostrou uma realidade dolorida, que por ser tão diferente da de vocês, fez com que vocês fingissem que ela não existe. Vocês compartilham qualquer notícia falsa, sem base, fonte confiável, sem um pingo de coerência e argumento, para ver se diminui o sofrimento de quem se acostumou a olhar apenas para o próprio umbigo. Vocês odeiam a Marielle porque as pautas que ela levantava machucam seu ego, cutucam seu privilégio. E só de eu usar a palavra privilégio, vocês já odeiam esse texto.

Vocês relativizam a comoção com a morte da Marielle, não porque se importam com outras mortes que foram silenciadas, que não tiveram a mesma comoção, mas porque vocês não querem que a morte dela signifique algo, porque vocês estão acostumados a morte de mulher, ainda mais preta e favelada, não significar nada além de estatística. Ouvir os gritos do que aconteceu com ela obriga vocês a escutar algo que nunca precisaram ouvir.

Vocês não odeiam a Marielle, vocês odeiam ter que sair do mundo onde o “Grande irmão”, tem controle de tudo, sabe de tudo, faz tudo certo. Mexer em privilégio dói, tentar compreender, mesmo que pouco, a realidade do outro, dói. Ver que instituições de poder em que você confia também são falhas, dói. Vocês não odeiam a Marielle, vocês odeiam o fato de que a morte dela força vocês a olhar para o lado, porque olhar para o lado dói.