A gente cresce, aprende a fazer as malas, vai, pela primeira vez, sozinho até a estação de trem e espera. Os sapatos lustrados, as mãos suadas, o sorriso no rosto e a expectativa da vida. Mas, logo cedo, os sapatos ficam empoeirados, as mãos começam a tremer ao invés de suar, o sorriso cansa, a postura endurece e então a gente percebe, cedo ou tarde, que o trem nunca chega na hora, às vezes, o trem nem chega. E agora a grande duvida, o quê fazer com a mala cheia de sonhos que eu carrego? O que fazer com as expectativas que eu trouxe comigo para a estação? O que eu faço se o trem não chegar? Essas são excelentes perguntas, mas eu, infelizmente, não sei as respostas. A gente cresce esperando tanta coisa, esperando comprar tudo o que quiser quando receber o primeiro salário, esperando conseguir comprar uma casa depois dos vinte, entrar na faculdade “certa” e conseguir se formar sem grandes problemas. A gente espera conhecer pessoas novas, ter um relacionamento, ou vários deles, ser feliz. Mas ai a gente cresce e começam os simplórios “tapas na cara”, a gente percebe que o primeiro salário mal paga as contas e sim, você aparentemente começa a ter contas para pagar, diversas contas. Você percebe que seu dinheiro talvez não dure até o fim do mês e assim, você começa a esperar que a semana acabe logo, o mês acabe logo, os dias acabem logo. Você começa, mesmo sem perceber, a esperar o fim sempre com a expectativa de um começo que dura pouco. Seus amigos seguem caminhos diferentes dos seus, seus pensamentos mudam, evoluem e você percebe que eles não coincidem mais com os das pessoas ao seu redor, você se fecha, se sente sozinho. Você percebe que vai ter que morar com seus pais até depois dos vinte, talvez até os trinta ou mais, percebe que o mercado imobiliário é uma grande selva e que a vida não é tão fácil como nos filmes que você tanto vê. Você liga a TV e assiste pessoas que tem a sua idade e já são milionárias, até bilionárias, e não consegue entender o porque de não ter nada de especial em você. Você começa a se questionar se realmente vai conseguir, mas conseguir o quê? Você não sabe. É tudo muito nebuloso, sem garantias e assustador. Você começa a se arrepender por ter pedido tanto para crescer tão depressa. Você fica frustrado, triste e cheio de duvidas. Na estação, outras pessoas, que também perderam seus trens, esbarram em você e acabam tê empurrando em algumas direções. Você percebe que elas tentam seguir o mesmo caminho que seus pais seguiram, mas você não quer seguir esse caminho, mesmo que esteja sendo empurrado para ele. Você começa a discordar da política atual, logo você que odiava política. Você percebe que o mundo anda todo errado e que existem mais pessoas que lugares no trem, muito mais pessoas que lugares. Você começa a odiar o trem e a lutar por mais lugares, você se junta a um pequena parte daquelas pessoas que também se importam em lutar por mais lugares no trem, mesmo que esses lugares não sejam para elas, nem para você. Você tenta suavizar o sorriso e conter as lágrimas quando o motorista anuncia uma pequena vaga em um dos bancos de trás do pequeno trem, você não ocupa a vaga, ela não é para você, você lutou por ela por anos, e agora, conseguiu que alguém, tão igual a você quando chegou na estação pela primeira vez, embarcasse no trem, você fica feliz. Talvez você esteja finalmente aprendendo o que é felicidade. Você encontra seu lugar no mundo, mesmo achando que o mundo não tem lugar para você. Você luta por mais lugares e sorri quando outras pessoas se juntam a você. Você percebe que o mundo talvez não possa mudar, mas que pequenas coisas podem ajudá-lo a melhorar. Você se importa menos com o lugar para onde vai e mais com quem você quer ser quando chegar lá. Você está feliz com isso. Você se torna você, mesmo que você seja apenas mais um. A grande maioria das pessoas é "apenas mais um". Você percebe que o mundo raramente segue seus planos e, com o tempo, você aprende a viver sem esperar tanto pelo trem que nunca chega. Talvez algum dia existam trens para todo mundo, por agora, você conseguiu lutar por alguns lugares e está feliz com isso. O mundo pode não mudar, mas está melhor por sua causa e alguém, algum dia, vai conseguir um lugar no trem e vai sorrir. Você entendeu o que é felicidade e você, finalmente, está bem com isso.
sexta-feira, 13 de maio de 2016
quinta-feira, 7 de abril de 2016
Crescer é dar adeus as coisas e ficar adulto é perceber que isso, se despedir, é algo inevitável.
Ser adulto é entender que aquela parte triste da sua “crise de adolescência” ficou para trás, mas descobrir, por consequência, que a tristeza tem uma maneira bem singular de sempre manter-se com a gente. Crescer é dar adeus as coisas e ficar adulto é perceber que isso, se despedir, é algo inevitável. Às vezes perdemos coisas que nem se deram ao trabalho de uma despedida. Ser adulto é entender que a faculdade não garante coisa alguma, até o conhecimento que ela proporciona depende de você. Ser adulto é ter que ir ao mercado sozinho, ter que ir ao shopping sozinho, ir ao médico sozinho, ter que encarar longos dias sozinho e perceber, no meio disso tudo, que ficar sozinho não é a pior coisa que pode acontecer com você, às vezes, ficar sozinho é libertador. Crescer é entender que sua mãe podia não ser tão feliz quanto você achava, é saber que ela chorou escondida por causa de suas brigas, é saber que ela morreu por dentro quando não deu aquele presente tão esperado no seu aniversário. Ser adulto é entender que ela nem sempre podia entender você. Ficar adulto é compreender como as pessoas vivem mesmo sem dinheiro, como a gente reclama de barriga cheia, como a gente deveria ter aprendido melhor o que é perdão. Crescer é finalmente perceber que o que fazemos para os outros, nossas ações tanto boas quanto ruins, refletem mais do que somos do que nós mesmos poderíamos refletir. Crescer é enxergar o mundo com uma lente menos embaçada e colorida. Ser adulto é encontrar-se no lugar de vários outros adultos que criticamos algum dia. Crescer leva anos, ficar adulto a gente fica de repente, no meio de um dia, de uma tarde, de uma conversa, seja ela profunda ou totalmente “boba”, seja ela com seus amigos ou com estranhos na rua. Crescer é acumular batalhas, ficar adulto é perceber em quais dessas batalhas vale a pena se lutar. Crescer deixa cicatrizes e ser adulto, bom, ser adulto é arranhar essas cicatrizes, vez ou outra, e perceber que elas ainda doem.
terça-feira, 8 de março de 2016
...Não é dia da mulher para quem apanha um dia sim e o outro também...
É oito de março, mas eu não quero nenhuma flor, não quero entrada de graça no cinema, nem em restaurante, nem em baladinha. É dia da mulher, mas isso não significa nada além de um falsa gentileza, de uma hipocrisia sem fim, de uma promessa vazia. Hoje era para ser meu dia, era para ser o dia de todas as mulheres, mas não é. Não é dia da mulher para quem apanha um dia sim e o outro também, não é dia da mulher para quem não conseguiu denunciar o abusador porque estava morrendo de medo, não é dia da mulher para quem não pode ser considerada uma mulher apenas porque não nasceu com uma vagina. Eu não quero rosa, eu quero igualdade salarial, eu não quero chocolates, eu quero poder andar com a roupa que eu quiser, eu não quero entrada de graça, eu quero que o meu “não” signifique “não”. Eu não quero ser respeitada hoje, eu quero ser respeitada todos os dias. Eu não quero ganhar flores e declarações em um país onde o índice de violência contra a mulher, que já é alto, aumenta mais a cada dia. Eu não quero flores, porque as flores irão murchar amanhã, assim como as promessas vazias. Eu quero andar na rua sem medo, quero ir para casa sem medo, quero acordar e saber que fulano ganha o mesmo que eu, já que realizamos as mesmas tarefas no trabalho. Eu quero poder conseguir subir de cargo em uma empresa sem ter um monte de gente insinuando que eu tive que dormir com alguém, eu acordar e perceber que finalmente pararam de usar meu corpo para vender cerveja. As flores morrem amanhã, assim como muitas mulheres morrem todos os dias. Então peguem sua flores, chocolates e entradas de graça. Eu não quero uma lembrança, eu quero respeito, não apenas hoje, eu quero respeito todos os dias.
domingo, 28 de fevereiro de 2016
[...] Nada realmente dura com você e isso é triste. Você é mais vazia que um balão cheio de ar.
Você foi embora e eu não fiquei com nada além do eco de suas palavras vazias. Você foi embora sem explicação nenhuma, sem razão nenhuma, sem nos dar a chace de conversar. Você virou as costas e foi embora, juntou suas coisas e foi viver com seus novos amigos. Você é feita de momentos, nada realmente dura com você e isso é triste. Você é mais vazia que um balão cheio de ar. É até engraçado se pararmos para observar com atenção essa história toda, nosso roteiro foi escrito por um estagiário decadente que percebeu que não recebia o suficiente para aguentar a ressaca moral. Nós somos uma comédia deprimente, daquelas que prometem risos, mas decepcionam no final. Que final? Nós nem tivemos um final, você foi embora antes mesmo dos créditos começarem. Nós somos o fruto de um roteiro mal adaptado e sem propósito, engraçado e patético no começo, cruel no meio e sem nenhum final. Você sempre se importou em decorar suas falas e eu, bom, eu era uma atriz que não sabia que tinha recebido o papel principal. Você afogou todos em meio a suas mentiras e me fez dançar a coreografia ensaiada de uma banda sem som, você era uma peça de teatro pronta para acontecer. Você não precisava de mim, você precisava de uma platéia e você conseguiu. Você apresentou seu espetáculo, envolveu todos em seu drama ensaiado, recolheu as recompensas, se orgulhou das vaias e foi em busca de novos atores. Outros participarão de suas peças, dançarão a sua musica e tentarão compreender os seus motivos, mas eles também ficarão para trás com o tempo, junto com todos os seus roteiros mal escritos que nunca chegarão a imprimir na tela de um grande filme. Nem Shakespeare mergulharia nessa, você é apenas um drama forçado e sem valor.
sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016
A vida pode ser um clichê, mas a morte, mesmo quando esperada, é sempre surpresa.
A vida não permite ensaios, nem regravação de cenas. A vida não permite a você ter um roteiro, nem decorar suas falas. A vida não te conta o que vai acontecer daqui há dois anos ou dois minutos. A vida acontece agora e ela não espera por você ou por sua vontade de viver. A vida é o circo iluminado, a risada do palhaço, as palmas da platéia. A morte, bom, a morte é quando as palmas acalmam, o riso para e as luzes apagam. Você comprou seus presentes de Natal, mas não vai poder entregá-los, você marcou de cortar finalmente seu cabelo, mas não vai aparecer no salão. A vida pode ser um clichê, mas a morte, mesmo quando esperada, é sempre surpresa. Vão ter que mexer nas suas coisas, dobrar as suas roupas, por em dia suas contas. Vão guardar as suas lembranças e passar seus pertences para frente. Aquele dinheiro que você guardou todos esses anos, para aquela sua viagem inesquecível, nunca vai ser usado, pelo menos não por você. Você não teve a chance de esperar se formar para ser feliz, para ter dinheiro, para comprar aquela coisa que sempre quis. Você não teve tempo nem se despedir. Um acidente bobo em um trânsito no feriado e pronto, acabou. A vida não espera por ninguém para acontecer e a morte também não. A morte é aquele tio chato que ri de uma piada que não teve graça nenhuma. A vida dos outros irá continuar, mesmo que aos poucos, sem você. Apenas aqueles que eram extremamente próximos serão realmente afetados. Suas lembranças serão guardadas naquelas fotos e naqueles momentos em que você foi realmente feliz. Ninguém irá lembrar de você pelo dez que tirou naquela prova que passou três noites inteiras estudando e sim, por aquele sete verdadeiramente comemorado. Sua turma da faculdade vai entrar na sala e sentir a sua ausência, mas logo algum aluno esquecido sentará no seu lugar e os outros estarão ocupados demais estudando para próxima prova para notar. A morte é aquele livro que você não conseguiu terminar e vida, bom, a vida é como o vento que continua a soprar, mesmo que o moinho não exista mais.
sábado, 19 de dezembro de 2015
Mulher já nasceu com a faixa de puta...
Mulher já nasceu com a faixa de puta. Com a pré disposição para ser puta. Com o sobrenome de puta. Quando se é adolescente, os ensinamentos para meninas são diferentes dos ensinamentos para meninos. Porque menino tem que ser “pegador” e menina tem que “se dar ao respeito”. Por que menina que não “se dá ao respeito” é o quê? Puta. Desde adolescentes já recebemos essa faixa. Desde cedo recebemos a listinha do que a mulher pode ou não pode fazer. Mulher não pode namorar cedo, por que mulher que namora cedo é o quê? Puta. Mulher não pode ter tido diversos relacionamentos, por que mulher que já transou com mais de um homem é o quê? Puta. Mulher não pode ficar gravida cedo, por que mulher que engravida cedo é o quê? Puta. Pai que cria filho sozinho é herói, mas mãe que cria filho sozinha é o quê? Adivinha, é puta. Sempre puta. Recentemente vimos o caso da Fabíola, que teve sua vida intima ilegalmente exposta na internet. Assim que saiu o famoso vídeo, todos se encontraram no direito de serem juízes do bom comportamento e sentiram-se no direito de falar sobre a vida pessoal de alguém que nem conhecem. Vocês já pararam para pensar sobre isso? Você não conhecem a Fabíola, por que estão vocês a julgá-la então? Mas já é tarde demais, Fabíola já foi condenada e ganhou a grande faixa. O que Fabíola é? Puta, é claro. Mas e se a história fosse invertida? E se Fabíola pegasse o namorado na cama com a amiga, quem seria a culpada? A amiga, é claro. E sabe por quê? Porque mulher é tudo puta. Temos uma presidenta no país e sabe quais são os maiores xingamentos que ela recebe na internet? Adivinha, ela é mulher, então é o quê? Sim, puta. De todos os comentários que li, a grande maioria utilizava termos de cunho sexual para xingá-la, sendo que nenhum de seus escândalo diz respeito a sua vida sexual, mas ela é mulher então já recebeu a faixa. Se fosse um homem na presidência, ele seria xingado de corrupto, ladrão, mas não de “puto” e sabe por quê? Porque só mulher carrega essa faixa. A culpa sempre recai nos ombros das mulheres, mas nunca no dos homens e sabe por quê? Porque homem é homem e mulher é o quê? Puta. Pobre das putas que tiveram sua profissão utilizada como ofensa, elas não tem nada com isso. Não inverta sua culpa nem utilize dessa desculpa. Não se ache no direito de usar o termo “puta”. Deixem as putas em paz. A mulher nem sempre tem culpa.
sexta-feira, 18 de dezembro de 2015
Sobre roupas e amizades que já não nos "servem" mais.
Sabe quando uma roupa não nos serve mais, mas continuamos a querer vesti-la? Quando temos aquela camiseta bonita no fundo da gaveta, aquela que já nos foi grande companhia, mas hoje não nos serve mais e mesmo assim, ainda a mantemos conosco? Às vezes isso também acontece com uma amizade. Manter uma amizade ou um relacionamento que não se encaixa mais com a gente, é como manter uma peça de roupa que não nos serve mais. Aperta, incomoda, por vezes machuca, e a gente são se sente mais confortável vestindo aquilo. Mas por algum motivo a gente continua guardando em casa, em um cantinho do guarda-roupa, esperando, mesmo que milagrosamente, que aquilo volte a encaixar perfeitamente com a gente. Inventamos muitas daquelas mentiras inocentes para enganar a nós mesmos, “talvez eu emagreça ou engorde”, “talvez eu mude o estilo”, “talvez vire moda novamente”. Mas a grande verdade é que só porque algo encaixou perfeitamente um dia, não quer dizer que não vá ou não possa deixar de encaixar futuramente. Acho que a gente sabe, mesmo que apenas lá no fundo, quando uma coisa não está servindo mais. É triste, mas é verdade e demoramos para aceitá-la, porque é complicado explicar para nós mesmos que não é porque uma coisa deixou de servir que não gostamos mais dela. Até insistimos por um tempo, mas não vale a pena. Não adianta mudar um monte de coisa na gente só para tentar entrar em uma roupa que já não nos serve mais.
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